18/03/2009

Exercício Processos Jornalísticos - Bia Abramo

Reportagem - Folha de São Paulo
Sábado, 07 de Março de 2009.

Dom José defende não excomungar o padrasto da menina de nove anos, que a estuprou
Por Renata Baptista e Fernanda Odilla

Ele afirmou que Lula é um católico "mais ou menos" por ter criticado a decisão de excomungar mãe e médicos responsáveis pelo aborto.


O arcebispo de Olinda e Recife (PE), dom José Cardoso Sobrinho, disse ontem que o aborto é um crime mais grave que o estupro ao defender a excomunhão da mãe e dos médicos responsáveis pela interrupção da gravidez de uma menina de nove anos e não a do padrasto da garota, que admitiu tê-la estuprado. Ele ainda afirmou que o presidente Lula, que condenou a decisão da igreja, é um "católico mais ou menos".

"Católico que é católico aceita a lei da igreja. Quem não aceita é católico mais ou menos, e isso não existe", disse. Para os médicos, a continuidade da gestação de gêmeos poderia ser fatal à menina, que pesa cerca de 30 quilos.

Em entrevista concedida ontem à Folha por cerca de uma hora, na sede da regional da CNBB em Recife, o religioso disse que o padrasto da menina, que confessou à polícia ter abusado sexualmente da garota e da irmã dela de 14 anos por cerca de três anos, não foi excomungado -como aconteceu com a mãe e os médicos.

Segundo ele, o crime de estupro não está incluído nos delitos gravíssimos da igreja que causam a excomunhão automática -como aborto, heresia e violência física contra o papa, entre outros-, apesar de ser considerado "pecado".

"De acordo com a lei de Deus, a igreja condena todos os pecados. Homicídio é pecado. Quem comete não está excomungado, mas é um pecado grave. Roubar, assaltar e estuprar também são pecados, mas não tão graves como o aborto."

Arrependimento

O arcebispo reafirmou que todos os envolvidos no aborto -mãe e médicos, menos a própria menina, que não possui idade para discernir o que ocorria- estão automaticamente excomungados da igreja, o que significa não poder receber os sacramentos, como a eucaristia e o casamento.

Dom José disse que os excomungados podem deixar a condição e, se se arrependerem, serem absolvidos em confissão.

Em entrevista à Folha na quinta-feira, o médico e católico praticante Rivaldo Mendes de Albuquerque, 51, um dos que interromperam a gestação da menina, disse lamentar a decisão. "Tenho pena do nosso arcebispo, que não conseguiu ser misericordioso com o sofrimento de uma criança inocente, desnutrida, franzina, em risco de vida, que sofre violência desde os seus seis anos."

A menina, que estava com quase quatro meses de gravidez de gêmeos e passou pelo aborto na quarta, recebeu ontem alta. Ela e a mãe foram levadas a um abrigo em local não divulgado. A menina vai continuar recebendo atendimento médico e psicológico. O padrasto está preso desde o dia 27, no presídio de Pesqueira, cidade vizinha a Alagoinha, onde a família morava.



________________________________________________


COLUNA DE OPINIÃO - DRÁUZIO VARELLA

Folha de São Paulo - Ilustrada
Sábado, 14 de Março de 2009.

O colunista e médico Dráuzio Varella, exprime sua opinião nessa coluna, sobre um dos casos mais polêmicos dos últimos dias. Foi o estupro da menina de nove anos que ocasionou em uma gravidez. A criança teve de ser submetida à interrupção dessa gravidez gemelar, pois corriam risco de vida a menina e os gêmeos. Devido o aborto, a mãe e a equipe médica responsável pelo aborto, foram excomungados pela Igreja Católica, através do arcebispo José Cardoso Sobrinho.

Dráuzio Varella parabeniza seus colegas, já que segundo ele, “a medicina foi criada para aliviar o sofrimento humano”. O colunista não julga o ato de excomunhão dos médicos pela Igreja Católica, até porque esta possui normas, dogmas e princípios, que precisam ser defendidos, para não haver incoerência. O arcebispo agiu segundo o Código Penal do Direito Canônico.

Porém, Dráuzio Varella, exprime nessa coluna que não entende o posicionamento da Igreja em defender o estuprador (que inclusive era padrasto da menina) e condenar o aborto de uma criança de nove anos que corria perigo de vida.

Segundo ele, a Igreja através desse tipo de atitude, tenta intimidar o Estado, pois “os políticos não ousam enfrentar a Igreja”. Apenas o presidente da republica e o Ministro da Saúde se manifestaram contra a atitude de excomunhão.

A Igreja Católica ao condenar a camisinha, aborto etc., não mobiliza apenas católicos, mas toda a sociedade, afirma Varella.






Nenhum comentário: